O Desejo da Cor: entre a razão da linha e a abstração da cor

Atualizado: Mar 23

O desejo de separar o “desenho” da cor veio a partir de um impulso classificatório da experiência sensorial humana. O intelecto artístico europeu renasceu do período medieval e começou a enxergar o mundo partindo do solo e de seu cotidiano, diferentes dos seus precursores que compreendiam o céu e seu Deus como o único motivo válido de representação. Claro que não era tão separatista ou simples assim, mas, para generalizar, houve uma ruptura na forma de criação de arte. Com ela emergiu o grande debate de “disegno vs. colore” formulados nas escritas de Giorgio Vasari (1511–1574) e Lodovico Dolce (1508–1568), iniciado para avaliar e julgar a diferença entre as escolas florentinas e venezianas.


Os pintores e escultores de Florença, como Donatello (1386–1466), Michelangelo (1475–1564) e Leonardo da Vinci (1452–1513) prezavam pelo desenho — a linha — na escultura e pintura. O gesto, a perspectiva e a precisão geométrica tomaram o maior posto na produção de obras plásticas. Paralelo a isso, a arquitetura ganhou um patamar cada vez mais elevado pelo desenvolvimento tecnológico, ressaltando a importância da estrutura sobre a cor.


Na cidade rival, Veneza, apesar da pintura também contemplar as questões consideradas dentro do universo da “linha”, a cor predominou a relevância. Se pensamos em telas de Ticiano (1490–1576) ou Tintoretto (1518–1594), pensamos em céus exacerbadamente azuis, e tecidos de cores pulsantes em meios a gestos teatrais. Até a arquitetura da cidade dos canais exalta a presença da cor, como, por exemplo, os surreais mosaicos de inspiração bizantina da Basílica de São Marcos.



Jacopo Tintoretto, A última ceia (1563/1564). Óleo sob tela.


Ambas as cidades acabaram expondo características quase caricatas que exemplificaram o debate, como se uma pudesse ser o oposto da outra no espectro (simplificado). Enquanto uma tinha propensão à linha, a outra, à cor; uma a razão e ciência, e, a outra, ao detalhe e à beleza; uma era o epicentro da cultura ocidental, enquanto a outra edificou seu ambiente a partir de influências múltiplas trazidas pelas explorações marítimas. Enquanto um lado se tornou o racional e estrutural a partir da geometria, a outra se tornou sensível pela conexão com o supérfluo. É deste ponto que podemos deixar de lado os duelos das cidades italianas e começar a considerar o duelo de linha versus cor como um exemplo de microcosmo, refletindo as problemáticas gerais de nossa história e cotidiano.


A teoria da cor se desenvolveu a partir da rixa com a linha, sendo a primeira considerada desnecessária em comparação a outra. Esta teoria, sempre tendendo ao abstrato, expandiu campos sensoriais e sensíveis do encanto. Não é à toa que denominamos dois tons de azul diferentes como “Taití” ou “Calcinha”, respectivamente um local e um objeto de desejo, ou que consideramos o vermelho como pulsante e apaixonante, e o verde esperançoso. Criamos significados para as cores, que nos permitiu descrever nossos sentimentos e criar afeto pelo que até então era impalpável em nossa compreensão. Cores começaram a tomar vida a partir da subjetividade imposta em sua nomenclatura ou expressão. Os feitores que prezaram a objetividade matemática acima de tudo enclausuraram a cor como ambígua e superficial. O senso de imaterialidade ressaltado pela cor considerou-a frívola, botando-a como secundária à matéria.


O mesmo feitio que considerou cor como menos importante na produção da arte também promoveu um lado como prioritário em diversos outros debates. Formas de classificação escalaram importância e relevância, de maneira que isentam designados assuntos de credibilidade e impacto. Vimos o mesmo acontecer entre o homem e a mulher, a Europa e o “oriente”, o branco e o negro, o hétero e cada letra do LGBTQ+, etc. São inúmeros os debates promovidos que tendem a elevar um acima do outro, botando o outro nessa posição de inferioridade, e, por consequência, na marginalidade.


A teoria da cor abriu caminhos de subjetividade e contemplação sensível que assustou àqueles que não a queriam compreender. Talvez seja mais fácil considerar as palavras de Charles Le Brun (1619–1690) citando que cor permanece no universo supérfluo e, portanto, feminino. Mas, se aceitarmos esta teoria, não só restringiríamos a contemplação de cor como um universo multifacetado, mas perderíamos a capacidade de compreensão do poder que este campo permite – campo que ainda pode ir muito além do que já foi explorado.


Essa não é uma tentativa de atrelar assuntos como posicionamentos políticos de direita ou esquerda. Pelo contrário, é considerar um pensamento para desconstruir essas formas classificatórias que engessam estes pensamentos em bilateralidade. Se há uma necessidade humana de classificação, então que comece a categorizar assuntos em diagramas horizontais, que contemplam cada subtópico do assunto, afinal, quando falamos e escrevemos do “todo”, muito há de ser perdido.


Por Gabriela Davies

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