Manifeste! Ainda não é tarde.

Por Nathan Braga e Clara Machado.

Rubem Valentim, Sem Título, 1989.


Fico pensando no tempo, na relação entre passado e futuro, nas suas implicações no presente. Sim, ainda não é tarde pra nós.

Nós, que estamos aqui, somos as testemunhas, as provas vivas de que não é possível negligenciar a morte. Não só temos o direito como temos o dever de falar sobre ela, de testemunhar em nome dos que não a venceram, mesmo que nenhum de nós vá vencê-la. Nomear é trazer para o presente, para perto. Se eu nomeio, eu aproximo. Por que a aversão em nomear as mortas e os mortos, em nomear a própria morte? Ainda que essa relação direta entre testemunha e vítima não seja tão horizontal e verdadeira. Afinal, como testemunhar e falar em nome daquilo que não vivemos? Estamos vivos. Vamos ficar vivos.

Por isso a importância de resgatar e proteger o que resta. A perda existe e o que resta do que se perdeu, os estilhaços (os nomes, não consigo não pensar nos nomes), têm o poder de nos colocar dialeticamente em contato com ela. Nela e fora dela ao mesmo tempo. Isso porque o processo de nomeação de uma coisa nunca fala inteiramente sobre aquela coisa. Nomear é perder, nomear é deixar escapar. Mas e não nomear? E repreender?

Em alguma medida, sempre que vejo uma repulsa acerca da nomeação dos fatos e fardos relacionados à morte, me vem à cabeça a imagem dos cemitérios-parque, nos quais os ritos fúnebres são geralmente proibidos e os túmulos sequer têm identificação. O distanciamento da imagem dos cemitérios clássicos faz aproximar a imagem destes da imagem de parques, gramados verdes… Mas, ainda assim, não anula o que eles são: cemitérios. A morbidez está no tema ou no agente de enunciação?

O modo como se acumulam as camadas de terra serve como imagem para pensar uma relação possível com o tempo. Ou os troncos das árvores que crescem de dentro para fora, nos contando o caminho percorrido. Enquanto a secretária da cultura fala em deixar o passado e olhar para o futuro, me pergunto o que é o futuro se não o acúmulo dessas camadas sobre as quais se pisa e sob as quais permanecem os rastros do que fomos. Viver o presente sem negar o passado nos dá a possibilidade de não cometer os mesmos erros. Falar sobre os que não estão mais aqui para falar não é carregar cemitérios nas costas ou arrastar cordéis de caixões, é justamente o contrário. E, no entanto, trabalha-se incessantemente para asfixiar a memória.

Diante da imagem caricata da secretária de cultura dizendo ser leve e estar viva (frase que poderia também ser substituída por foda-se a vida, uma vez que cumpriria o mesmo rito desejado, mas não cairia muito bem à personagem de “boa moça”, que não fala palavrão e não quer falar da morte) não é possível dissociá-la de um movimento político e estético de “limpeza”. Limpeza do que e de quem é dizimado. Enterrar os corpos o mais rápido e longe o possível, sem nomes.

Não poderia chamar de projeto, porque não acredito que o governo tenha algum, mas o que a secretária faz, em nome de seus líderes, é inverter o luto pelo mito. Afastar a morte para o mais longe sem permitir o luto, tática tão mórbida quanto usar do excesso de mortes para anestesiar o luto, anulá-lo. Como não podemos fazer parar as mortes, façamos com que elas sejam tantas que não se poderá nomear, sentir ou identificar. Trocar os nomes pelos números. O uso do mito como ferramenta de controle social, enquanto narrativa forjada para que não se percam as rédeas. Ou os cordéis. Ou para que se venda um ideal. Fantasia como criação de um cosmos. A quem serve a construção desse mito?

Enquanto artista, a secretária parece alinhar-se a uma forma específica de arte, historicamente confrontada pelas vanguardas. A busca pela representação do bom e do belo, por uma arte “leve”, que coloca todas as imagens que produzem desconforto no lugar da morbidez, recusando-as, banindo-as, se apresenta como sintoma específico do recalque instaurado como modo de operação. A violência e a morte são recalcadas, enterradas fora da vista e sem nome na lápide. Por isso, é importante lembrar (nomear) que o nazismo teve um projeto estético e artístico que buscava justamente banir qualquer imagem de desconforto, anular a visualidade “mórbida” e fazer da arte o lugar da harmonia e da beleza, enquanto o horror produzido pelo próprio nazismo se mantinha encoberto.

E hoje, por que continuar a falar sobre morte? Por que insistir em dar nome aos mortos e mortas? Porque não olhar a morte de frente significaria não nomear o autor da ação, não olhar para quem mata. Não falar da morte é proteger o assassino, não falar da tortura é proteger o torturador. Essa narrativa se constrói sobre a ideia de que os fatos se desfazem se não forem mantidos por perto, se perdermos a referência, o horizonte. Na classificação dos nazistas, aliás, as ditas artes degeneradas não eram apenas censuradas. Era importante e servia ao projeto opressor o caráter educacional da exibição, nomeação dessas enquanto tal e a posterior queima das obras, até restarem somente as cinzas.

Mas as cinzas são também parte da história. E de vez em quando elas são sopradas para o presente. Tendo ardido uma vez, elas nos fazem agora arder os olhos.




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