Quais os impactos da pandemia no cenário cultural brasileiro?

Atualizado: Mai 11


Quais são os usos possíveis das ferramentas virtuais e quais desafios elas impõem ao cenário brasileiro?

Na segunda-feira passada (17), o governo do estado do Rio emitiu uma nota decretando situação de emergência no Rio como maneira de combater o contágio do Coronavírus. A medida pede que locais onde ocorram aglomerações de pessoas, principalmente em espaços fechados, interrompam as atividades pelo período de, no mínimo, 15 dias. Dessa maneira, os órgãos de saúde pública esperam tornar o contágio mais lento, evitando a superlotação de hospitais e leitos, que já enfrentam uma sobrecarga preocupante.


Tendo isso em vista, desde o início da semana passada, espaços públicos e privados de cultura no Brasil inteiro tem cancelado suas programações, acatando às recomendações estatais. No entanto, a incerteza do período total de resguardo necessário à reversão desse cenário tem preocupado diferentes instituições culturais. O mercado de serviços e parte do cultural são os mais afetados nessa situação, já que necessitam de um contato efetivo com o público.


Segundo Leandro Valiati, professor de economia da cultura da UFRGS, o setor mais abalado pelo período de recessão provocado pela pandemia será o da cultura, justamente por atingir o fator estruturante da sustentabilidade do cenário cultural no país — o público. Conforme avalia, enquanto o consumo dos serviços de streaming tende a subir, o afastamento entre as pessoas e os centros de cultura devem gerar um déficit de emprego e, portanto, de renda, diminuindo a cadeia produtiva da cultura. O atual cenário deve mudar completamente o perfil de consumo cultural, priorizando o acesso a acervos virtuais. A prática, no entanto, reverte em poucos empregos no cenário local, já que grande parte da arrecadação vai para um circuito internacional de transferência de renda. No Brasil, o quadro se mostra ainda mais alarmante: enquanto as indústrias culturais se veem ameaçadas nos últimos anos, sofrendo uma escassez de políticas públicas e de financiamento, aliado a uma clara disputa ideológica no que diz respeito à censura. Ao fragilizar a ocupação do público nesses espaços, a pandemia ataca uma das últimas fontes de sustentabilidade econômica do setor.


Seguindo a previsão de Valiati, algumas instituições tem aproveitado a distância do espaço físico para pensar as potencialidades que o cenário virtual pode oferecer ao público. Diversos museus têm oferecido visitas virtuais como forma de manter seu público em contato com o seu programa. Um exemplo desse caso parte do Google Arte e Cultura, que reúne mais de 500 instituições em uma plataforma virtual, oferecendo uma alta diversidade de conteúdo, incluindo tours virtuais, fotos em alta-resolução de seu acervo e textos provenientes de materiais educativos. Integram o acervo digital o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa), o Musée d'Orsay e o Louvre. Assim, o visitante pode entrar em diversos museus sem precisar sair de casa, de forma gratuita.

Google Arts and Culture e sua extensa gama de instituições disponíveis para visitação virtual. Fonte: Google Arts and Culture.

Sabemos, no entanto, que as instituições culturais do Rio enfrentam grandes problemas orçamentários, lidando com pouco capital para promover todo o seu calendário cultural. Esse obstáculo cria um ambiente pouco favorável ao desenvolvimento de materiais acessíveis, como a criação de modelos virtuais para a visitação de exposições, principalmente as temporárias. As iniciativas de comunicação pelas telas de computadores e smartphones ainda se restringe à documentação de poucas obras, que veiculam pelas redes sociais das respectivas instituições. Há, ainda, a dificuldade de veiculação de imagem de certos trabalhos de arte. Resguardados em acervos fechados ao público, sua disponibilidade atende as necessidades de um grupo muito seleto de colecionadores.

Muito se discute, no entanto, se o fomento nesse tipo de iniciativa poderia promover uma adesão irreversível a essa nova estrutura, tornando ainda mais escassa a presença física em espaços que, por vezes, carecem de um número mínimo de circulação para continuarem existindo. Como levantado por um artigo europeu, os sistemas de criação gráfica atualmente em circulação possuem a capacidade de apresentar uma imagem em total verossimilhança, conferindo ao visitante uma sensação ilusória de acuracidade. Os autores lembram, no entanto, que a realidade virtual não é capaz de abraçar, ainda, a complexidade de objetos reais, já que abstrai algumas de suas qualidades inerentes, como a dimensão tátil, a refração da luz do ambiente, o peso, entre outros aspectos.

O museu virtual, enquanto um espaço autônomo, carece, portanto, de algumas percepções que são imprescindíveis no contato com a obra de arte. No entanto, seria errôneo e purista classificar as novas possibilidades conferidas pelo avanço de tais ferramentas como algo a ser descartado. Segundo aponta a autora Rosali Henriques, a proposição de um espaço virtual pode mostrar suas potências enquanto uma ferramenta que dê suporte a um ambiente físico, privilegiando a potência de intertextualidade que apenas o hipertexto permite. O gênero textual, que ganhou força após o desenvolvimento da internet, permite uma alta indexação e edição de qualquer produção de discurso por parte dos autores e dos leitores. Segundo a autora:


O museu virtual é um espaço virtual de mediação e de relação do patrimônio com os utilizadores. É um museu paralelo e complementar que privilegia a comunicação como forma de envolver e dar a conhecer determinado patrimônio.

O projeto "A Voz da Arte", uma parceria da IBM com a Pinacoteca, visava aliar o uso de realidade aumentada com o setor cultural, sendo um dos primeiros projetos de tecnologia em uso no cenário brasileiro. Fonte: Exame.

O espaço virtual apresenta, portanto, diversas ferramentas a serem exploradas com mais atenção pelas instituições de arte. Há, ainda, os casos das galerias virtuais, que ascendem vertiginosamente, tomando vantagem dos custos baixos para manter um espaço virtual. Uma análise dessas novas instituições, no entanto, requer um outro artigo. Por fim, é necessário entender que um espaço, seja este virtual ou não, só é capaz de sobreviver quando fomentado pelo interesse do público, aliado à renovação dos modos de produção de discurso dos espaços de arte e do fomento de iniciativas governamentais e privadas. Apenas assim o cenário cultural brasileiro poderá seguir,vivo e pulsante.


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