Eu sou um artista alegre


Sem título (À tua imagem e semelhança), 2020 – Díptico fotográfico – 60 x 40cm (cada)

Produzir reflexões e imagens acerca da condição humana é quase sempre um processo de colocar-se em crise. Avaliar e contrapor as mudanças, os processos históricos, as relações e os modos de vida exigem de nós uma educação pautada para a sensibilidade. O problema principal em torno dessa sensibilidade é que, na busca de nos tornarmos mais sensíveis e atentos ao mundo, nos deparamos com a real condição trágica e egoísta da sociedade contemporânea, o que faz com que muitos artistas, educadores e intelectuais tornem-se pessoas tristes.


De tal modo, a associação direta entre conhecimento e liberdade torna-se uma inverdade para essas pessoas, que acabam por sentir que quanto mais conhecimento buscam, mais prisioneiras se tornam. Para elas, a ignorância é o lugar das possibilidades, principalmente porque a tomada de consciência da própria condição de vida pode significar perda de esperança em modificá-la. Dessa forma, criadores tendem a ser pessoas tristes, principalmente porque suas produções quase sempre almejam a nitidez em detrimento da opacidade, buscam a lisura em contraponto ao estriado, tornando a busca por conhecimento um verdadeiro fardo e a esperança de interferência na sociedade um lugar de produção de pessimismo.


Por outro lado, existem os criadores que aceitam a condição trágica da sociedade, enxergando nos espaços-entre dois momentos de decepção, um momento de realização e de possibilidade de construção de algo, de proposição da modificação dos sistemas hegemônicos.


Tais criadores, produtos de gerações e classes sociais que já nasceram condenadas ao fracasso, entendem a responsabilidade de terem sido os primeiros de suas famílias e redes iniciais de contato a furar as bolhas da educação, do ensino público superior, do sistema de arte e de outros sistemas elitistas e excludentes, entendendo o papel fundamental da educação e do conhecimento na transformação de realidades, ainda que ela não ande só. Portanto, para eles, ainda que esse processo desemboque na decepção do encontro com a condição trágica da vida, da sociabilidade e das oportunidades, somente o conhecimento é capaz de instrumentalizar para a autonomia. Através da autonomia, essa nova geração de intelectuais e criadores incorpora suas histórias de vida, suas experiências e assume seu lugar de enunciação na história.


Eu me considero um desses.


Eu sou um artista alegre.


Considero-me um artista incluído nesta categoria porque diante da degradação de tudo o que nos sustentava, diante do cinismo e da propagação da ideia de que mais nada vale a pena, opero com a ideia de que tudo vale, procurando fraturar a lógica e pensando a retomada do poder e da autonomia da minha própria ação, que penso em deixar clara com a demarcação, aqui nesse espaço, da primeira pessoa enquanto sujeito interessado e interessante, do eu artista e das produções plásticas que proponho como modo de nitidez em meio a opacidade do nevoeiro.


A transferência da vida em rede que se dava no âmbito concreto, físico e humano para a vida em rede virtual, hipervalorizou as novas formas de comunicação, de produção de imagens e informações e fez acelerar os modos de consumo desses produtos. Ainda que esse fato tenha redemocratizado o acesso a muitos conteúdos exclusivos, como exposições de acervos internacionais, tenha possibilitado as trocas entre culturas totalmente distintas e tenha nos feito repensar a visibilidade antes privilegiada a certos artistas e obras de arte, ela também nos trouxe questões delicadas. A principal delas está relacionada a uma ausência total de ética num campo em que tudo parece ser permitido.


A lógica dos compartilhamentos, da produção de imagens – por exemplo os memes - e da valorização da certeza em detrimento da dúvida, que tornou todas as pessoas especialistas e aptas a emitirem opiniões em todos os assuntos, fez com que as produções de verdade por parte de usuários da rede se tornassem um modus operandi, culminando nas fake news e em uma nova crise da história e da imagem, que afetaram e continuam a afetar de forma direta a vida concreta, as democracias ao redor do mundo e, consequentemente, a arte.


De uma lógica mais pessimista, ainda que sem desconsiderar que alguns artistas tenham incorporado em suas práticas as novas mídias e formas de produção de conteúdo, o fácil acesso às redes e a possibilidade de produzir, reproduzir e descartar imagens, colocou o trabalho artístico em uma verdadeira zona limítrofe. Qual a verdadeira relevância da arte, da produção de imagens, do campo simbólico e da produção de objetos não necessariamente utilitários em uma sociedade globalizada e cada vez mais interessada em informações prontamente digeridas? Como tornar os motivos de um artista ainda relevantes diante de uma sociedade na qual tudo parece ter se tornado saliente, necessário de ser compartilhado, distribuído e que no fim acaba por ser pasteurizado?


Soren Kierkegaard*, teorizando sobre a contemporaneidade, se perguntou o que denotaria ser contemporâneo a Cristo e concluiu que “significaria hesitar aceitar Cristo como salvador. A aceitação do cristianismo coloca Cristo necessariamente no passado” (GROYS, 2011, p.121). Ser contemporâneo a arte de hoje, pode querer nos dizer o mesmo: desconfiar de tudo o que é pensado e produzido. O problema parece ser mais profundo no caso da arte contemporânea porque, além dos questionamentos próprios e de especialistas da área, ela vai enfrentar de forma brusca a retomada do poder por regimes totalitários e opressores, que vão a todo o momento desqualificar qualquer tentativa de sobrevivência autônoma em meio a essa grande zona de baixa visibilidade que vivemos, utilizando inclusive das mídias e das novas formas em rede para reprodução de clichês e para inquisição da arte e de artistas, justificada pela moral, mesmo que os meios utilizados pelos inquisidores sejam imorais.


Essa zona nebulosa, potencializada pelos fracos no poder, vai afetar diretamente a produção artística do nosso tempo, com artistas cada vez mais abandonados pelas instituições de fomento e incentivo, mas também pelo esvaziamento das questões a partir da lógica do excesso. Quanto mais problemas eles criam, mais dificultam que nos organizemos em torno da resolução de algo. Os sistemas opressores vão se aproveitar da ideia de um sujeito constituído de múltiplas identidades para enfraquecer e dificultar a organização coletiva dos sujeitos, de modo que, muitas vezes, os trabalhos de arte e as pesquisas dos artistas vão ser reduzidos a lógica do “pequeno-eu” e considerada desimportante diante de problemas de ordens práticas, como saúde e educação, desconsiderando inclusive a possibilidade de intervenção da arte nesses campos.


Dessa forma, alguns artistas e pesquisadores acabam por caminhar em círculos em meio ao nevoeiro. Outros, porém, vão assumir o esgotamento como via positiva, possibilidade total de recomeço e construção de novas alternativas para suas produções, que passam, na maioria das vezes, por descortinar de vez a relação direta e inseparável entre arte e vida, acabando com a ideia ultrapassada de genialidade artística ou com o distanciamento entre a figura do artista e a de outros trabalhadores. Para isso, vão tratar de questões pessoais, traumas, atravessamentos abertamente subjetivos e vivências próprias, precariedades materiais, dificuldades de acesso e circulação a sistemas hegemônicos, inclusão e permanência nos espaços, propondo a retomada dos lugares de enunciação e organizando-se em coletivos, explorando e aceitando as diferenças, propondo reparações históricas, mas falando com a propriedade da experiência, a propriedade dos corpos. Essas produções e esses artistas vão entender que só é possível superar o niilismo de dentro dele, entendendo a vida como vontade criadora e, portanto, falando de suas próprias vidas frente as dificuldades de se manter inteiro nesses tempos.


Dar a vida para a vida, 2018 – Escultura – 15 x 100cm – Ouro sobre mármore e naftalina.

As formas de desarticulação de poder, caracterizadas pelo uso de tecnologias que vem substituindo as relações humanas e reduzindo o sentido da visão enquanto sentido primeiro, não são capazes de inviabilizar corpos que antes já não podiam enxergar com nitidez. Quando tudo o que se tem é a falta, não há nada de valioso que se possa ser subtraído. Quando desde que se nasce, se conhece a ausência de um horizonte, fica mais fácil caminhar sob um céu sem estrelas e dentro do nevoeiro, enquanto todos ainda engatinham como modo de reconhecimento do espaço. Há um centro, há várias margens e nas margens, os corpos são os próprios centros.

*Foi um filósofo, teólogo, poeta, crítico social e autor religioso dinamarquês amplamente considerado o primeiro filósofo existencialista.


Nathan Braga participa, junto à Érica Magalhães, da exposição Bordas da Ausência. Confira a exposição na íntegra.



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