Amor e corte

Por Guilherme Gutman¹


Sem Título, Gustavo Speridião, 2019

Meu último mês foi abominável por força de circunstâncias externas e extremas, tão penosas quanto particulares. Assim, em busca de algum refrigério, conversei com uma amiga tanto quanto pude.


Dessas conversas saíram várias coisas, entre elas a sua lembrança desta linda frase de James Baldwin [na juventude profunda, eu havia achado o seu The fire, next time (1963)² muito impressionante]:

“You think your pain and your heartbreak are unprecedented in the history of the world, but then you read³.”

Minha amiga havia recordado a frase de Baldwin em associação a uma cena que eu, pedalando velozmente – efeito de um desejo de velocidade⁴ - pelo Rio de Janeiro, havia visto no dia anterior:


Um casal – vivendo em situação de rua; vivendo a vida como peregrinos, pelos caminhos duros e acidentados da cidade – ali, destituídos de quase tudo, compunham o cenário como personagens de fábula.


A mulher sorria para ele, acho que meio entorpecida e afinal, insensata pela própria insensatez.


Ele também sorria, também estava em estado de fluxos soltos de consciência⁵, mas o seu olhar não se dirigia a ela, mas a uma flor. Ele se esticava todo em um galho de árvore, na tentativa de alcançar a flor que cintilava na ponta – um jasmim-manga – de colhe-la e de entrega-la àquela mulher.


Aí então, o olhar dele estará nela, repleto da expectativa amorosa de que a flor baste aos dois por um tempo imponderável (e de morte anunciada) que é o tempo de apaixonamento.


Um lance do jogo do amor; um lance de dados também. Um lance que passa rápido.


Tudo isso “entrou” pela visão, pelo olfato; ou por outro tipo de sensação que seria difícil tentar descrever e com a qual eu acabei “ficando”, não certamente por acaso. Certamente por algo que o mundo teve o capricho de me apresentar e eu, por minha vez, de enganchar-me em desejo naquilo que se passava entre eles.


Eles estavam juntos e “os seus amores me pareceram bons”⁶; estavam inteiramente dentro disso que, desde Platão, chamamos de uma relação amorosa.


No pouco tempo em que a bicicleta, de velocidade por vezes mortífera me deixou ver a cena, e ao cheiro dos jasmim-manga, a triscar o meio fio, aconteceu-me uma queda que, naquele instante, me basculou de sujeito a objeto.


Nesta cena estão presentes os elementos que a psicanálise considera cruciais na montagem das peças no tabuleiro⁷ do amor: alguém ama alguém; alguém espera ser amada por alguém. Alguém que era amada passa a amar, em uma espécie de troca de posições⁸. Daí se produz a significação do amor.


Embora uma experiência afetiva seja, na maior parte das vezes, vivida com naturalidade no um-para-um; nessa espécie de “eu-a-amo – ela me ama” das relações eróticas. Há algo, porém, que triangula essa relação pensada inicialmente como dual, complexificando o que se passa sobre o tabuleiro.


O próprio tabuleiro pode ser pensado como um terceiro elemento que articula a rede simbólica sobre a qual os enamorados triunfam, nesse xadrez que é também uma tragicomédia; uma ópera bufa na qual estamos enfiados até o pescoço.


Na experiência analítica, há algo que se passa de modo diferente, sobre o qual vale falar. Com Freud e com Lacan (e com algum enigma) afirma-se que “na experiência, o desejo se apresenta primeiro como perturbação⁹”.


Na cena, ela era a amada e ele procurava oferecer a ela, sob a forma de uma flor – nada mais clássico, banal e ao mesmo tempo soberbo – aquilo que, em sua fantasia, seria o que ela deseja dele. É um dos modos de se falar daquilo que se passa na cena.


Ela, por sua vez, esperava jubilosa e amorosa que retornasse para ela, pela mão e pelo tour de force dele de seu amante, e sob a forma de um jasmin-manga, o que se apresenta como “objeto a, a causa do desejo.


Na clínica, o foco permanece mais sobre aquilo que é escutado e experimentado na relação terapêutica, mas quando as coisas retornam pelo olfato, quando um retorno se apresenta por uma via sensoperceptiva, tal como um perfume, ele carrega com ele e talvez transmita algo de uma experiência de Real.


Por exemplo, em que ponto da experiência algo que escute passa da vocalização à experiência auditiva. Ou seja: quando algo que parte do Real do mundo, passa ao Real de meu corpo?


Assim, a vida dos outros – ficcionalizadas ou não – podem ser experimentadas por inteiro e de modo especial na literatura. De outro modo, nas narrativas que as pessoas constroem sobre as próprias vidas, mas em contextos clínicos. Como sugeriu Baldwin, no contato com formas de sofrimento aproximáveis das suas em outras formas de vida¹ e pela via literária. Em alguma literatura também poderá cintilar algo que fará convite ao desejo do sujeito-leitor.


¹ Médico psiquiatra, psicanalista, mestre e doutor (Instituto de Medicina Social – UERJ), professor do departamento de psicologia (PUC-Rio), crítico de arte e curador independente.

² Não apenas pelo livro de Baldwin, mas pela intenção de entender como a psicanálise lidou no passado e no presente, então, com questões de análise que envolvessem questões que dissessem respeito ã “negritude” minha dissertação de mestrado foi sobre “raça”(se discutia vigorosamente o termo, na época) e psicanálise, numa perspectiva teoria e clínica. ³ “Você pensa que a sua dor e o seu pesar são inéditos na história do mundo, até que você lê”. ⁴ A velocidade é um pouco “tirânica”, no sentido de que ela submete o sujeito às vontades dela, velocidade. Mais e mais e, logo, percebe-se que há nela algo de uma pulsão que equivale a um beijo da morte. ⁵ William James. ⁶ Choro Bandido (1993). Chico Buarque. ⁷ Quadriculado? Há várias formas especializadas possíveis de se imaginar. Simplifiquemos com o quadriculado (que já carrega complexidade suficiente). ⁸ O Seminário 8: a transferência. Jacques Lacan. ⁹ Seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação (1958-1959), Lacan, p.385. ¹Aqui, ressonâncias wittgensteinianas.

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