PARA ALÉM DO CORPO

Nudez semântica

Márcia Falcão

Insurgência ao doméstico: Márcia Falcão e as alterações semânticas da imagem

 

Por Aldones Nino¹

            Na exposição Para além do corpo: nudez semântica, Márcia Falcão articula questões acerca de suas experiências cotidianas e a lógica eurocêntrica, pondo em debate a descolonização epistêmica no campo da história da arte. Formada em pintura (2010) pela Escola de Belas Artes  da UFRJ, Márcia Falcão hackeia referenciais tradicionais, hibridizando-os com redes sociais online, instituindo assim uma figuração ancorada nas experiências de seu corpo e dos territórios que ele habita.

            A proposta curatorial de Para além do corpo: nudez semântica é traçada pela interconexão de visualidades e narrativas,  postulando suas produções como um ponto de referência dentro de um recorte curatorial, mas também como um hipertexto, permitindo que o visitante siga as ligações possíveis entre vínculos poéticos. A internet é duplamente invocada, surgindo não só como plataforma de circulação, mas também como elemento constituinte dos trabalhos. Sua proposta sobrepõe a obra com links, expandindo as possibilidades de relação com seu universo compositivo. Ao longos dos últimos anos, sua poética resulta de fraturas que emergem dentro do imaginário do sistema-mundo, posicionando criticamente ao afirmação uma ordem alternativa do real, expondo dinâmicas impostas aos grupos historicamente marcados pela destituição econômica.

            Em Vênus no fio (2019) uma fotografia remete à tênis pendurados em fios de alta tensão, o que marcaria o maior risco de trânsito ao seu corpo, metamorfoseado em Vênus enquanto carne presentificada pela tinta acrílica. Ao mesmo tempo em que dialoga com clássicos como a Carcaça de Carne (1655) de Rembrandt e Carcass of Beef (1925) de Chaim Soutine, aproxima-se das Trouxas Ensanguentadas (1970), de Artur Barrio que expõe o desaparecimento de corpos e o monopólio da violência exercido por parte do Estado brasileiro na década de 1970.

            AFROdite (2019) é o print de uma postagem no instagram, onde uma transmissão ao vivo, reelabora a figura da deusa do amor, da beleza e da sexualidade na antiga religião grega. Equivalente romana da deusa Vênus (um dos principais eixos de sua pesquisa) tradicionalmente representada pelo Nascimento de Vênus cena imortalizada  nas obras de Sandro Botticelli  (c.1485) e William-Adolphe Bouguereau (1879). AFRO destaca-se do título, no interesse de demarcar seu posicionamento frente à hipersexualização e objetificação comumente associada ao seu corpo, como merci beacoup, blanco! (2017), de Musa Michelle Mattiuzzi, há inversão da exibição, que passa a ser orientada como  uma estratégia poética de afirmação das lutas políticas na vida cotidiana.

A fotomontagem Pedaço de Carne (2018) cria camadas dialógicas entre seu corpo e carcaças despersonalizadas, estabelecendo pontes entre a sua história pessoal e subjugação, realocados como marcadores de autodeterminação frente a violência de gênero. A montanha de ossos recorda a videoinstalação Balkan Baroque (1997) de Marina Abramovic que expõe o fenômenos de estupros em massa, mas que em sua tática de circulação, Márcia Falcão segue paralela a pesquisa empreendida por Aleta Valente, em trabalhos como Contra-Filé (2015) e Material Girl (2015), que em sua feitura evidenciam a experiência de uma mulher carioca e suburbana.

            O manejo da atividade sexual como recurso depreciativo é uma comum prática discursiva do machismo, já vivenciado pela artista que maneja modelos de alfabetização no intento de desmantelar uma lógica moralizante. Na aquarela Repita comigo: E-la dá pra qual-quer um! (2019), Márcia inverte a posição do corpo feminino racializado frente aos discursos ideológicos e preceitos morais. E justapõe a canção Geni e o Zepelim de Chico Buarque e os trabalhos da série Burocracia de Anna Bella Geiger, ambos de 1978. Propostas que potencializam-se enquanto referências, na medida em que a canção alude à circunstâncias políticas de execração pública, e os desenhos ao adestramento ideológico dos jovens para a absorção de valores patrióticos.

            Dois registros fotográficos que originam-se na experiência de trânsito forçado experienciado por ela em sua família, a Última Ceia (2019) e Tótem Christo (2020). Sua última ceia é resultante da violência carioca, ao ambiente doméstico e as memórias atreladas a ela, registros brutos, que distanciam-se das regras compositivas da Última Ceia (1498) de Leonardo da Vinci. O casal de artistas Christo e Jeanne - Claude alterou as dimensões do real ao realizar o Reichstag 'empacotado' (1995), fazendo uso de um material dúctil, apagando detalhes e exaltando a sua condição plástica. A técnica utilizada para amenizar os contrastes arquitetônicos, em Tótem Christo, manifesta memórias pessoais de deslocamento. Na imagem sacos de lixo usados em sua mudança, são dispostos ao lado de seu corpo, referindo à função totêmica do símbolo familiar. Se o casal utiliza material dúctil para amenizar limites arquitetônicos, Márcia Falcão inverte a escala, indo de sua experiência subjetiva e pessoal para a super dimensão das problemáticas da sociedade brasileira, registrando assim, equivalências entre racialidade, história, corpo feminino.

            A Vênus Brilhante (2020) é uma escultura realizada em sabão durante uma live no instagram no início do período de quarentena, releitura da estatueta de calcário associada a narrativas acerca da fertilidade e esculpida entre 28.000 e 25.000 anos atrás, conhecida como Vênus de Willendorf. Sua escultura é potencializada pelo material escolhido que alude ao serviço doméstico e aos lugares de enunciação historicamente negados a mulher. O ambiente doméstico e marcadores raciais são elementos presentes na performance Bombril (2010), realizada por Priscila Rezende. Ambas mimetizam metaforicamente conhecidos produtos para limpeza, em atos que reencenam tarefas domésticas através de gestos críticos sobre a política do branqueamento.

            E por último, em Colar de resistência (2020), Márcia Falcão retorna a prática da pintura como espaço de elaboração sobre autonomia do corpo feminino negro, e a nudez se soma a simplicidade de uma peça metálica que fica dentro do chuveiro elétrico, que remete ao efeito de resistir aos olhares e delimitações de sua prática, que materializa-se a partir de elementos domésticos. 

            A exposição Para além do corpo: nudez semântica, surge como parte de um processo complexo de constante compreensão e avanço nas temáticas ligadas aos marcadores de diferença nos campos das artes visuais do Brasil. E ao utilizar hiperlinks e um site como plataforma de exposição, potencializa a função dialógica de seu trabalho que oscila entre distintos campos. Entre variadas mídias, a trajetória de Márcia Falcão evidencia seu esforço e inventividade, estabelecendo novas estéticas/políticas que nos fazem refletir sobre a complexidade cultural, temporal e histórica do Brasil contemporâneo frente às figuras canônicas da historiografia da arte.

[1] Curador e Historiador da Arte. Bacharel e licenciado em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (2014), bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2019),  mestre em História, Política e Bens Culturais pelo Centro de Pesquisa e Documentação em História Contemporânea do Brasil (2018). Doutorando em Historia y Artes pela Universidade de Granada em cotutela com a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Email: aldones.c@gmail.com