GRID

O grid no pós-guerra criou uma ideia ou convicção de que as obras podiam expandir os espaços infinitamente, o que significou o primeiro passo para a neutralização do valor de qualquer espaço específico.

O que reúne as obras nessa exposição, para além do traçado em grade, é a ideia de uma paisagem. Uma paisagem inventada ou a aparição de um lugar, que de alguma forma, através de uma construção abstrata e econômica de elementos, deixa claro que a paisagem não tem mais ligação com um objeto do mundo natural, mas com a investigação a respeito das próprias circunstâncias que são mobilizadoras dessa transformação da paisagem. Para o crítico Dan Cameron, “o grid lentamente se desenvolveu de um dispositivo usado para ajudar a criar uma ilusão espacial para um sistema que se impôs sobre o espaço propriamente dito”. O grid declarou a modernidade da arte ao ajudá-la a conquistar sua autonomia e “em parte” a dar as costas à natureza.

Nessa mostra nos deparamos com situações distintas a respeito da aparição do grid como propositor de paisagem. Por exemplo, o de um diálogo incessante entre arte e arquitetura, ou a própria formação projetual de um território/espaço, como é o caso das obras de Lucia Koch e Raul Mourão. Por meio de gestos mínimos, os artistas possibilitam que o vazio ganhe forma e se estabeleça como visibilidade e território. Mourão traz a crueza, a sujeira e a atmosfera viva e árida das ruas, enquanto Koch dialoga com as tradições mouras e o legado que o muxarabi trouxe para a contemporaneidade. Suas estruturas vazadas operam como um corpo translúcido, ou um grid que se coloca como que aberto ou flutuante às interações e paisagens que o cruzam. Cabe ressaltar também que a crueza do trabalho de Raul se alinha ao grid projetado sobre a parede de Komatsu. Pairando sobre essa trilha tosca, torta, inacabada há o vergalhão, o traço, o componente que revela um canteiro de obras. A obra se faz nesse processo de nunca se colocar como completa, fechada, pronta. Há uma força própria da cidade que traz dinâmica para essa obra. O grid rascunhado na parede revela o seu caráter projetual e arquitetônico, duas circunstâncias caras a Komatsu. De modo inverso, os backlights de Ana Holck trazem uma memória afetiva à artista. Revelam um canteiro de obras de outra ordem e consequência. As linhas que constroem o grid se entrelaçam com uma imagem que pertence a sua própria história. O grid é uma referência a tudo aquilo que remonta à construção, arquitetura, geometria. São aspectos que são amplamente investigados pela artista.

Já Amalia Giacomini, ao delimitar áreas partindo de um gesto de sobrepor linhas, cria uma relação de figura e fundo, e no limite entre linha e materialidade, o grid é exposto em um intervalo ambíguo que manifesta aparência e dissolução. É como se a falta ou vazio fossem camadas ou linhas orgânicas que completassem o próprio método de execução da obra. Pelo viés da delicadeza, temos as obras feitas com pó de tijolo de Brígida Baltar. Eis o muro em formato de uma trama e o cobogó. A força deles está na própria fragilidade do material, em um estado que oscila perfeitamente equilíbrio e ordem, de um lado, e instabilidade e organicidade, por outro. São arquiteturas que exploram a memória e a afetividade de um espaço da cidade. Numa foto pertencente à série Fotoformas (c. 1951), Geraldo de Barros articula diversas visadas e perspectivas do teto da Estação da Luz, em São Paulo, construindo uma montagem autoral e óptica. Nesse emaranhado de estruturas metálicas e vidro que a foto revela, o grid se faz presente como uma estrutura ilusória, capaz de provocar uma geração de novas e sucessivas dinâmicas.

Os grids sujos, erráticos, desvios de uma pintura op mal feita e rasgada estão presentes nos trabalhos de Rafael Alonso. Umgrid torto e que ri de sua própria condição vacilante. Em Fabio Cardoso, suas telas colocam em evidência e logo em desconstrução duas categorias longevas da arte: o próprio grid e o monocromo. A transparência com que constrói a luz em suas pinturas coloca em dúvida a “pureza” dessas categorias citadas. Não é uma pintura opaca, pelo contrário, pois quer ser desnudada, revelar as suas distintas camadas e nesse instante o grid entra como elemento propositor. Já o trabalho de Zerbini explora, à primeira vista, o rigor de formas e linhas, herança da tradição construtiva na arte brasileira, porém somos levados por uma narrativa nada formalista que incentiva os jogos ópticos, explora as sutis tonalidades de sombras e altera o formato “perfeito” do grid: o que o interessa é uma indisciplina desse plano. O grid se faz também enquanto desenho projetado na parede. No trabalho de Nicolás Robbio, o desenho ganha o espaço e a virtualidade ao mesmo tempo. Pertence a um espaço-entre e se faz enquanto uma paisagem recortada que remetem ao grid, mas especialmente a janela ou brise-soleil. É a imanência de uma arquitetura que caminha por diferentes tempos, referências e propósitos.

Nas cartas/pinturas de Climachauska os números e naipes estão suspensos e o que nos resta é o fundo em grid. O que antes estava literalmente em segundo plano, agora se coloca como protagonista. A dinâmica desses grids remonta ao construtivismo e à arte concreta. Contudo, essa maneira de apresentá-lo induz mais a uma dispersão ótica do que a rigidez das linhas concretas. Se por um lado, o artista subtrai imagens do referente dessa obra (o baralho), por outro ele cria um imaginário sem tamanho para o espectador/jogador.

Constituir uma paisagem não como reprodução mimética da natureza, mas com a natureza ou com a ação do tempo. Esses parecem ser os fios condutores das obras de Carlos Vergara e José Bechara. Como um processo que remonta às monotipias, as obras, através da “impressão” da natureza, no caso de Vergara, e da ação lenta e ácida da química própria dos materiais empregados, no caso de Bechara, nos oferecem territórios. Ademais, o fato delas estarem próximas as de Daniel Senise, que claramente faz menção a dois artistas – Picasso e Cézanne – que tiveram a natureza como meio de investigação, e a de um desenho da série Máscaras, de Vergara, condicionam uma aura romântica: todas essas obras investem sobre um fragmento, um pedaço de paisagem no qual pode estar o todo, e que esse não pode ser desqualificado por uma racionalidade inibidora, mas capturado pelo instante de produção da obra. Já na tela de Vergara com motivos em losângos, de 1983, o referente são as grades que separavam o público do desfile durante os festejos do Carnaval. Saem os aspectos figurativos e o que permanece é o grid enquanto sugestão de um espaço que promove encontros e a compleição de uma atmosfera lúdica.

No terreno da arte, como afirma Anne Cauquelin “o artificial e o real, o inventado e o concreto, a verdade e a mentira, o original e a cópia não se dividem mais segundo uma dicotomia serena, mas mantêm relações fluidas”, abrindo caminho a um pensamento do verossímil. As obras dessa exposição nos revelam que a realidade não é mais exatamente a mesma: ela é duplicada, confrontada, e reforçada pela ficção.

Curadoria

Felipe Scovino

Artistas

Amalia Giacominii, Ana Holck, André Komatsu, Brígida Baltar, Carlos Vergara, Daniel Senise, Fabio Cardoso, Geraldo de Barros, Jose Bechara, Lucia Koch, Luiz Zerbini, Nicolás Robbio, Paulo Climachauska,Rafael Alonso e Raul Mourão.

Data de exibição

09/09/2017 - 24/09/2017

 Villa Aymoré - Ladeira da Glória, 26 - RJ 
terça - sábado | 13h - 18h 
galeriaaymore@gmail.com
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