Do Clube Para a Praça

<p><span style="font-family:times new roman">Essa &eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o sem curadoria.</span></p>

Fui chamada pelos artistas do Arte Clube Jacarandá para atuar como alguém de fora capaz de alinhavar uma multiplicidade de vozes para a mostra que inaugura uma nova fase da iniciativa de um grupo que, a princípio, desejava somente um lugar de encontro para expor, ver e falar sobre arte em tempos de trocas pessoais cada vez mais exíguas, de comunicação entre grupos não de encontros, mas de Whatsapp.

Se antes o Jacarandá habitava uma bela casa em Santa Teresa, hoje desce o morro para se fixar na Villa Aymoré, ocupando 600 metros quadrados a poucos metros de uma estação do metrô. Essa nova condição permite que o Jacarandá sonhe mais alto quanto a sua medida de intervenção na cena de arte da cidade do Rio de Janeiro. No lugar de um clube, um espaço público de visitação. No lugar de mostras esporádicas, uma programação constante. No lugar de uma troca para dentro, a vontade de estabelecer vínculos com o seu entorno. No lugar de um grupo fechado, uma multiplicidade aberta para novas propostas.

Esse momento pelo qual passa o Jacaranda poderia chamar-se “do clube para a praça”. Tendo aqui a palavra praça em seu sentido amplo, ou seja, como lugar que agrega, que acolhe a diferença, mas também lugar de descanso, lazer. Ou seja, trata-se de conservar o espírito do encontro e do momento de pausa das tarefas produtivas que estão na gênese do Jacaranda, instaurando também novos propósitos, outras possibilidades de ações e agentes. Em uma época na qual a ânsia produtivista torna-se regra, a arte tem o poder precioso de ser um ponto de resistência a essa dinâmica. E, nesse momento, a arte é política.

Vivemos em uma época na qual tendemos a pensar que o par arte e política vem à luz somente quando a primeira se põe a falar sobre um tema político. A capacidade política da arte, ou seja, de transformar percepções e tecer uma relação crítica com o mundo não está subordinada a necessidade de falar sobre algo. Os trabalhos aqui reunidos, extremamente diversos em suas poéticas, possuem isso em comum. Sublinham a dimensão sensível da obra apostando no poder reflexivo e crítico ali existentes.

Se não houve curadoria nessa mostra, houve sim um tempo aberto para visitar os ateliês dos artistas hoje reunidos e escutar qual seria a vocação doJacaranda. Esse processo de escuta revelou, entre outras coisas, o desejo por um espaço de experimentação, de troca com outras gerações, e sobretudo de um lugar no qual a arte esteja presente não para alavancar interesses externos, mas sim que tenha a própria arte, e quem com ela se engaja, ou se estranhe, como prioridades. Ou seja, esse novo ciclo do Jacaranda encontra-se pleno de potências. Cabe a cada um que ocupar esse lugar, hoje aberto ao outro, atualizá-las. Lembrando que cultura é a regra, arte a exceção.

Curadoria

Luisa Duarte

Artistas

Afonso Tostes, Angelo Venosa, Arjan Martins, Barrão, Carlito Carvalhosa, Cadu, Carlos Vergara, Cabelo, Chiara Banfi, Daisy Xavier, Daniel Senise, Everardo Miranda, Franklin Cassaro, Gabriela Machado, Iole de Freitas, José Bechara, Lucia Koch, Luiz Zerbini, Marcos Chaves, Mariana Manhães, Oskar Metsavaht, Paulo Vivacqua, Tomás Ribas, Vicente de Mello, Raul Mourão, Rato BranKo, Vik Muniz e Waltercio Caldas.

Data de exibição

22/06/2016 - 29/07/2016

 Villa Aymoré - Ladeira da Glória, 26 - RJ 
terça - sábado | 13h - 18h 
galeriaaymore@gmail.com
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